• Matheus Oliveira

A dívida Argentina

Por que a Argentina está “quebrada”?

O que fez a Argentina estar nessa situação?




Um caminho de quedas constantes


Diante das perguntas acima, faremos uma breve introdução dos pontos apresentados no livro "Crises Econômicas Internacionais" escrito pelo professor Roberto Dumas Damas. Segundo ele, a história econômica da Argentina começou em 1810 com uma guerra contra o governo colonial espanhol e culminará com a guerra de independência Argentina em 1816 até 1818, o país resistiu a inúmeras tentativas de dominação do Império Britânico.


"Durante o século XIX o país era uma nação exportadora de produtos agrícolas, principalmente trigo e carne, para o mercado europeu. Com o avanço da tecnologia de transporte ferroviário e navios refrigerados, a Argentina conquistava uma posição de destaque no mercado internacional, escoando suas commodities agrícolas principalmente para o Reino Unido. De 1870 a 1913, o PIB Per capita do País cresceu 2,5% ao ano, equivalente as principais economias desenvolvidas da época. Na tabela 1, de acordo com o trabalho de Cortés Conde (1997) em 1899 a Argentina já aproximava seu PIB per capita de países como o Canadá e ultrapassava a Itália" .


Este aumento no PIB Per-capita se deu graças ao aumento da demanda dos produtos exportados tanto pelo país, quanto pela grande entrada de imigrantes vindos da Europa, principalmente da Itália. Até 1914 a Argentina tinha crescimentos expressivos com a política econômica voltada ao mercado externo, segundo Roberto Damas Dumas.

"A época de bonança, vivenciada pela Argentina, comumente conhecida como “la belle époque”, terminou em 1930 com a crise de 1929 e a depressão econômica mundial. A Argentina como uma exportadora de produtos primários, teve que contar com a redução na demanda desses bens em conjunto com a queda nos preços das commodities no mercado internacional, afetou os termos de trocas do país". Em 1938, a renda dos argentinos era quase igual à dos franceses.


No entanto, com a chegada da Segunda Guerra Mundial trouxe um impacto na economia do país. O país buscou uma neutralidade em relação a países que estavam em guerra, tendo uma neutralidade como perfil fez com que a Argentina limitasse as possibilidades de comércio internacional. Por ser um país exportador, a Argentina sentiu fortemente um impacto em sua economia.


Já no ano de 1943, com a enorme agitação política resultante de uma política econômica baseada nas exportações durante a Segunda Guerra, fez com que, uma junta militar vinhesse a tomar o controle do país. Um membro da junta militar, chamado Coronel Juan Domingos Perón, foi colocado no cargo de secretário do trabalho. Perón com seu carisma e popularidade galgou o posto de presidente do país em 1946 com uma política gestada pelo populismo, sancionada pela forte presença estatal e por líderes sindicalistas.

Perón tinha como base de seu governo, o fechamento ao mercado internacional, ele nacionalizou várias indústrias, geralmente controlada por estrangeiros (britânicos) e ferrovias. Perón também elevou os salários reais em mais de 25% no período de 5 anos, aumentando o custo unitário da mão de obra do país. O aumento de salários propiciava no curto prazo uma melhora no padrão de vida da população, no entanto, no longo prazo isso acabava se transformando em um pesado fardo para a economia da Argentina. Como consequência dos atos populistas tomados anteriormente, fez com que a competitividade internacional caísse drasticamente, suscitando em crescentes déficits em conta-corrente, diz Dumas.


"Como resposta o país passou a adotar medidas de controle de importação, embora o nível do endividamento externo do país continuasse a crescer".


"No ano de 1955 diante da crise econômica vivenciada pelo país o então Presidente Juan Perón sofreu um golpe militar e foi deposto, levando-o a buscar exílio na Espanha. De 1955 a 11973 o país teve vários presidentes militares e civis em alternância de poder.

Em 1973 Perón saiu do exílio na Espanha e voltou novamente à presidência do país até outubro de 1994, (momento de sua morte),sendo sucedido por sua esposa, Isabel, que governou o país até 1976".


"De 1976 a 1983, mais uma vez o governo passaria às mãos dos militares com supressões dos direitos humanos e perseguição política, o que acabou conhecida como “guerra suja”. Durante o período, a Argentina foi governada por quatro juntas militares".


Segundo informações da época, "quando a primeira junta tomou posse, o índice de preços ao consumidor já alcançava 5.000% em termos anuais e o PIB vinha de uma queda de -0,4%em 1975, fechando o ano de 1976 com uma contração de 0,5%. Como forma de estabilizar a inflação, o governo lançou a chamada La Reforma Financeira, em 1977", sustentada pelos seguintes pilares:

  • Liberalização da conta capital, permitindo a livre mobilidade de capitais no país;

  • Liberalização das taxas de juros praticadas pelas instituições financeiras;

  • Abertura do mercado financeiro para players internacionais


"Em 1979, o governo adotou uma espécie de âncora cambial, pré-fixando depreciações cambiais, esta medida objetivava ancorar as expectativas dos agentes econômicos, quanto à formação de preços e ao mesmo tempo, limitar a volatilidade da moeda. Com as depreciações cambiais aquém do nível de inflação observada, a apreciação cambial real acabou resultante acabou levando o país a crescentes déficits em sua balança comercial. No ano de 1978 a Argentina tinha US$2,6 bilhões de superávit na balança comercial, já em 1980 as importações superaram as exportações em US$2,5 bilhões. Com a busca pela redução da inflação domésticas ocorreu um aumento de bens internacionais, com uma apreciação cambial real, a fragilidade externa da nação se constituindo e impondo ao país maiores riscos de paradas bruscas de financiamento externo".


"Com o conhecimento antecipado das taxas de juros, os empresários passaram a fazer inúmeros empréstimos atrelados ao dólar. De 1977 e 1979 as reservas internacionais do país passaram de US$3,8 bilhões para US$10,1 bilhões, resultado de expressivos endividamento externo. Já a dívida externa do país aumentou de US$11,7 bilhões para US$21,1 bilhões".


"Em 1979 e 1980, ocorreu o segundo choque do petróleo, consequentemente fez com que os Estados Unidos subissem as suas taxas de juros, como forma de conter as pressões inflacionárias em seu país. A fim de evitar a maxidepreciação, o governo e o banco central argentino aumentaram o seu endividamento externo para aumentar a estabilidade da moeda doméstica. Após o aumento das taxas de juros dos Estados Unidos, iniciado em 1979, a conta-corrente da Argentina passou de um superávit de 2,3% do PIB em 1978 para um déficit de 4,2% em 1981, no ano de 1981 ocorreu uma confiança no controle cambial e na defesa de paridade já estava seriamente danificada, e acabou ima maxidepreciação cambial de 231% no ano de 1981 e o fim do programa de depreciações controladas. Em 1982 volta a democracia no país com a subida do presidente Raul Alfonsin, da União Cívica Radical".


"No ano de 1985, o novo plano econômico capitaneado pelo então presidente civil Raul Alfonsin buscava colocar a nação de volta aos trilhos da estabilidade econômica. O Plano Austral, lançava uma nova moeda (austral) como forma de minimizar a memória inflacionária dos agentes econômicos baseado nos seguintes pilares":

  • Maxidepreciação cambial inicial;

  • Congelamento de preços e salários;

  • Redução das taxas de juros de 28% para 4% para depósitos e de 30% para apenas 6% para operações de empréstimos;

  • Estabelecimento de uma nova moeda (austral);


"Com o plano de reduzir drasticamente a inflação do país, fez com que Raúl congelasse os salários. Semelhante ao que aconteceu no Plano Cruzado implantado Brasil no ano de 1986, a falta de produtos nas prateleiras dos supermercados".


"Diante do descontrole econômico vivenciado, Raúl Alfonsín decidiu deixar sua posição como líder da nação seis meses antes do final de seu mandato, em julho de 1989. Em seu lugar assumiria Carlos Saúl Menem".


"Em abril de 1991, o novo presidente eleito, Carlos Menem, por meio de seu ministro da Economia, Domingo Cavallo, lançava um plano de estabilização financeira, tendo como sistema de currency board como o coração da nova política. Esse tipo de sistema cambial, faz com que, a autoridade monetária fique limitada a alterar a base monetária sem que ocorra uma contrapartida nas reservas internacionais. A Lei de Conversibilidade efetivamente implantada em 1º de abril de 1991, passou a um aviso aos agentes econômicos que: para cada unidade de moeda argentina (1 peso) existiria como lastro um dólar americano (1 USD). Com a lei, a autoridade monetária não poderia fazer emissões desenfreadas por meio de operações de open market".


"Inicialmente a paridade estabelecida foi de 10 mil austrais por dólar americano, mas em 1º de janeiro de 1992, o peso retornaria a ser a moeda oficial da nação com a paridade 10 mil austrais = 1 peso argentino = 1 dólar americano. Logo após a sua implantação, a inflação na Argentina declinou de mais de 2.300% em 1989 para 172% em 1991 e atingiu apenas 25% em 1992. De 1989 a 1992 o nível de reservas internacionais do país saiu de US$3,4 bilhões para US$12,5 bilhões, saltando ainda para US$17,2 bilhões em 1993.Do lado da atividade econômica, a queda das taxas de juros e o aumento do crédito ao setor privado possibilitaram um aumento na renda do país em quase 26% de 1991 a 1993".

"A década de 1990 testemunhou a crise no México, (na Ásia, na Rússia e no Brasil), e fez com que Independentemente de ter ou não laços comerciais entre o México, os países asiáticos, a Rússia e a Argentino, o sistema financeiro internacional sempre acaba induzindo um efeito de contágio, quer por meio da existência de credores internacionais comuns e/ou fundos internacionais que buscam zerar suas em países que de certa forma não apresentam fragilidades externa. O simples fato de apresentarem semelhanças nos fundamentos macroeconômicos, leva os agentes econômicos a atualizar suas probabilidades de default".


"Apesar do presidente Carlos Menem se esforçar e tentar modificação da constituição para conseguir o seu terceiro mandato, em dezembro de 1999 o então presidente, Menem deixou a presidência, entregando o cargo a Fernando de La Rúa".


"Logo que tomou posse, em dezembro de 1999, o presidente Fernando de La Rúa implantou um pacote fiscal com o objetivo de cortar gastos e endereçar os crescentes déficits nas contas públicas. Ocorreram 3 aumentos da carga tributária que foram aprovados pelo Congresso do país implantados em janeiro de 2000, abril de 2001 e agosto de 2001, chamado de impuestazo que tinha um aumento gradativo para quem recebesse mais, no país. Mesmo com o aumento dos impostos a economia ainda encolhia, o então ministro da economia José Luiz Machinea renuncia o seu cargo, entrando em seu lugar Ricardo López Murphy. O então ministro tinha uma visão mais adequada para a época, mas a deterioração do clima político impediu que López Murphy concluísse seu plano e ele renunciava".


"Após a renúncia de Murphy, o presidente De La Rúa chamou o lendário ex-ministro da economia do presidente Menem, Domingo Cavallo, para assumir o cargo de ministro da economia. Em menos de três meses Cavallo era o terceiro a ocupar o cargo, após a renúncia de Machinea e López Murphy".


"No ano de 2001 o ministro Cavallo lançaria um projeto de lei para substituir o dólar como moeda lastro do peso por uma cesta de moedas com participação de 50% do euro e 50% em dólar americano. O ministro tomou a decisão de adotar a paridade 1,08 peso = 1 dólar americano como forma de diminuir a perda da competitividade advinda da apreciação da moeda do país.

Em dezembro de 2001 o governo decidiu implantar um pacote que acabou trazendo mudanças drásticas a economia do país", dentre elas:

  • Congelamento das contas bancárias, limitando os saques de recursos dos depósitos bancários e poupança em até US$ 250 mensais;

  • Proibição de os bancos prometerem taxas de juros para a remuneração de depósitos denominados em pesos acima do oferecido para depósito denominados em dólar americano;

  • Limitação a saída de capitais do país permitindo apenas transações cambiais para operações de comércio exterior.


"Diante das medidas tomada pelo governo, a população foi para as ruas fazer protestos. O então ministro da economia, no dia 19 de dezembro renunciou ao seu cargo juntamente com o presidente De Lá Rúa que fez o mesmo, no dia seguinte".


"Com a queda de De Lá Rúa, é designado um presidente interino Ramón Puerta. Dois dias depois, foi nomeado Adolfo Rodríguez Saá como novo presidente. Sua primeira medida foi declarar moratória de US$ 50 bilhões da dívida externa pública por 60 dias".


"Em 28 de dezembro, sob forte suspeita de corrupção, o presidente Saá renunciou ao cargo de presidente interino da Argentina, assumindo em seu lugar o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Camanõ, em 31 de dezembro".


"No dia 2 de janeiro de 2002, a Assembleia Legislativa elegeu por maioria absoluta Eduardo Duhalde como presidente da nação. Era o quinto presidente do país em três semanas".


"Em abril de 2003 ocorreram novas eleições gerais para presidente no país. Dentre os candidatos, Carlos Menem e Néstor Kirchner passaram a concorrer no segundo turno. Em maio de 2003 Néstor Kirchner era eleito o próximo presidente da Argentina, sendo sucedido por sua esposa, Cristina Fernández Kirchner, em 10 de dezembro de 2007, que após promover um governo populista e corrupto, deixou o governo pelas eleições gerais, por meio das quais o Mauricio macri tomou posse em 10 de dezembro de 2015".


"Em 2006, com o pagamento da divida aos credores, o juiz americano suspendeu medidas contra a Argentina".


"País sai do default após mais de 14 anos".

"O juiz federal dos Estados Unidos Thomas Griesa suspendeu no dia 22/04/2016 suas medidas contra a Argentina, suspendendo a moratória, depois de o país ter pagado seus credores por títulos públicos vencidos desde o calote do final de 2001".

"Na somatória total, o governo da Argentina pagou cerca US$ 6,248 bilhões a 20 credores e, ficando para pagamentos futuros os quase US$ 3,1 bilhões restantes, segundo a agência France Presse".


"O pagamento desta nova etapa foi estipulado pela Argentina com os credores, liderados pelo fundo de investimento NML, após diversas negociações judiciais iniciadas em 2005 que terminou com uma sentença do juiz nova-iorquino Thomas Griesa favorecendo as partes que exigiam compensações".

"Ministro da Fazenda da Argentina, Alfonso Prat-Gay, anuncia fim da moratória em abril de 2016".


"Tendo revisado de maneira cuidadosa as apresentações da República, o tribunal encontra agora que as condições precedentes foram cumpridas. Desse modo, as medidas cautelares ficam anuladas em todos os casos", afirmou Griesa logo após ter recebido as provas de que a Argentina recebeu esses pagamentos.

"Após cumprir estes requisitos, a Argentina pediu ao juiz Griesa que assinasse uma ordem para confirmar a "suspensão das cautelares em todas as causas" contra e retire a Argentina do default de 2001, ficando livre para voltar aos mercados financeiros sem qualquer restrição".

O mediador Pollack expressou "satisfação" com o fato de que as partes conseguiram chegar a um acordo "após um longo período de contendas e recriminações entre as antigas administrações da Argentina e os credores". O secretário do Tesouro americano, Jacob Lew, disse que a saída da Argentina da moratória "é um testemunho da enorme mudança de política pelo presidente Mauricio Macri", e um resultado do "desejo de diferentes partidos políticos de trabalharem juntos".Isso não duraria muito tempo

"A Argentina tinha ao final de 2015 uma taxa baixa na divida externa em relação ao PIB, inferior a 50% (algo muito abaixo dos níveis mundiais dentre os países endividados)".

"No período Macri foi pago em abril de 2016 9,3 bilhões de dólares aos fundos especulativos que tinham ganho uma ação em Nova York por títulos de dívida em mora desde a crise de 2001 e colocou fim às restrições ao crédito internacional que a Argentina teve durante 15 anos. Desde então, o Estado aumentou a dívida em torno de 50 bilhões de dólares, até 58,6% do PIB, ou seja, só fez trocar a parte da dívida externa por dívida interna através da emissão de títulos da dívida pública".


O investimento estrangeiro acabou sendo uma grande promessa que nunca chegou.

Macri, procedente de uma das grandes famílias empresárias da Argentina, anunciou em 2016 uma chuva de investimentos que não chegou.

O investimento estrangeiro caiu no primeiro ano do Governo Macri para menos da metade dos 11.759 registrados nos últimos anos de Cristina Kirchner no poder. Em 2017, começou a se recuperar e no primeiro semestre acumulou 5,174 bilhões de dólares (16,5 bilhões de reais).


Em 2018 o país fechou com uma inflação acumulada de 47,6%, a maior em 27 anos. Maiores penalizados são os pobres já que além da dívida externa , o país vinha a sofrer com dívida interna e uma inflação galopante. Essa situação continuou no mesmo patamar até uma nova negociação da dívida em 2020.


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